Nem todo amor vale a pena

Postado dia 03/10/2019 na categoria Textos - Por

Há um consenso universal de que todo sacrifício por amor vale a pena. Quem não gosta de se dedicar intensamente por quem se ama? Está certo. O amor exige dedicação. E é gostoso, não é? Não medimos esforços, marcamos a vida, o coração, o corpo, por aquele amor que no calor do momento juramos ser para sempre. Fazemos loucuras. Gastamos dinheiro. Gritamos ao mundo o sentimento que nos queima por dentro. O amor é assim exagerado mesmo.

Mas será que todo amor vale a pena tanto esforço e entrega?
Bem, eu suspeito que não.

A verdade é que nem todo amor é bom. Nem todo amor faz bem. Nem todo amor deixa para trás lembranças boas e saudades. Às vezes ele só deixa um rastro de destruição e arrependimento mesmo.
O amor que merece os seus esforços é geralmente aquele que nunca te pedirá por isso. Ou se pedir, será um esforço em conjunto. Você se dedicando daqui, e o outro se dedicando de lá. O amor que merece total entrega é o amor recíproco. E nada menos que isso.

E a gente sempre sabe que um amor não vale a pena muito antes dele desandar. Amor ruim já começa errado e por mais que tentemos o tempo todo nos convencer do contrário, há sempre uma voz interior que nos alerta do buraco que insistimos em nos enfiar cada vez mais fundo.

Como quando aos 20 e poucos anos usei um dinheiro que demorei meses juntando para comprar um vestido que tanto queria, para sair com um casinho que me prometeu pagar tudo da próxima vez.
Não houve próxima vez. Ele terminou comigo dias depois dizendo não querer nada sério e na semana seguinte apareceu no mesmo bar em que eu estava, com sua nova namorada. E os pombinhos, é claro, se sentaram ao meu lado.
E lá fiquei eu, sem reação, sem amor, sem dinheiro e sem vestido. E foi naquele exato momento em que meu coração já dilacerado virava farelo que eu entendi que nem todo amor vale a pena.

Não posso dizer que não havia indícios. Eles sempre estão lá. Eu apenas não queria enxergar. Como toda apaixonada, joguei para longe qualquer ponta de dúvida que tentou nascer e mergulhei fundo em um oceano onde em pleno alto mar me descobri nadando sozinha.
Eu me afoguei e tive que me salvar sozinha. E hoje percebo que se eu tivesse apenas molhado os pezinhos naquelas águas traiçoeiras, não teria passado por toda a dor e desgaste emocional que passei.
Porque enquanto eu engolia água e me sufocava com meus próprios sentimentos, ele nunca nem ao menos tinha pisado na areia da praia.

Eu amei sozinha. E essa é a pior constatação de um amor que chega ao fim.

O que estou querendo te dizer com esse texto é para não ignorar os sinais. Não ignorar aquele pontinho de lucidez que habita o interior de todo apaixonado. Não se deixe cegar pelo amor. Se algo dentro de você tenta te fazer pisar no freio, pise. Se algo diz para ir com calma, vá com calma. Se os sinais de entrega da outra parte não são claros, ou são duvidosos, então é porque não há recíproca verdadeira.
E amor sem recíproca é amor que não vale a pena.

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Marina Barbieri é escritora, blogueira e mãe.
Autora da obra “Fique com alguém que não tenha dúvidas”, escreve crônicas, poesia e ficção.
Atualmente trabalha em seu segundo livro com previsão de lançamento para o final de 2019.

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