O mundo precisa das nossas melhores crianças

Postado dia 10/04/2019 na categoria Textos - Por

Recentemente li uma matéria de uma menininha que sofria ofensas racistas dos coleguinhas da escola e acordava todos os dias chorando implorando para a mãe deixá-la ficar em casa. A matéria, rica nos detalhes das ofensas pesadas e cruéis, era de fazer qualquer um chorar. E me fez.
Embaixo dessa notícia tinha outra similar mas infelizmente com um desfecho fatal. Um garoto que sofria ofensas homofóbicas na escola não suportou mais e um dia quando sua mãe chegou em casa, ele havia cometido suicídio.
Uma criança aos 11 anos cometendo suicídio não pode ser ignorada. Não podemos deixar para lá.
E não é um assunto referente apenas aos pais dela. Ou aos pais das outras crianças. É um assunto que precisa ser discutido por todos.
Vivemos em sociedade e como sociedade precisamos resolver nossos problemas juntos.

Não estamos falando de apelidinhos que todo mundo ganha e dá na escola. Não estamos falando de crianças que brigam em um dia e no outro já se abraçam e fazem as pazes. Não estamos falando de crianças sendo crianças. É algo que vai muito além de traquinagem infantil. Estamos falando de algo mais profundo. Algo mais sombrio. Algo mais malvado. Estamos falando de humilhação. Estamos falando de crueldade. Estamos falando de ódio. Estamos falando de humanos que em tenra idade já são desprovidos de humanidade.
É preocupante.

Se já é difícil conceber a ideia de uma pessoa sendo atroz com outra, se torna duas vezes mais difícil quando os personagens são crianças. É de dar nó na cabeça pensarmos que crianças podem sim ser cruéis.
Somos levados a crer que toda criança é bondosa. A sociedade nos propaga a ideia de que criança não possui maldade, não possui sentimentos e atitudes cruéis. Mas nos esquecemos que crianças são apenas pequenos seres humanos. E como todo ser humano, ela possui capacidades iguais tanto para ser boa quanto para ser ruim.
Às vezes pende para um lado. Outras vezes para outro.

Mas qual é a força que impulsiona esse pendulo? São os pais, os principais influenciadores? É a essência da própria criança, sendo algo inerente a ela e imutável? Ou é o mundo, que como num jogo de sorte ou revés, pode transformar uma obra de arte em sucata? Qual é a força capaz de definir o caráter de um ser?

Mesmo não sabendo categoricamente a resposta, será que estamos minimamente preocupados com essa questão? Não tenho tanta certeza se sim.
Será que não estamos preocupados demais em fazer as vontades das nossas crianças que esquecemos de nos preocupar com que tipo de seres humanos elas se tornarão?

O mundo não precisa de mais seres humanos. O mundo não precisa de mais crianças mimadas que crescem e viram adultos que acham que esse mesmo mundo gira em torno delas. O mundo não precisa de mais egoísmo, crueldade, arrogância e dor. Isso já temos mais do que podemos lidar.
O mundo não precisa de nós e nem dos nossos filhos. Ele precisa do que nós estamos dispostos a oferecer. Ele precisa que nos importemos. Precisa do bem que ensinamos e fazemos. O mundo precisa de pessoas preocupadas com outras pessoas.
Temos urgência de humanidade mais do que de humanos.

Então que tenhamos a sapiência necessária para deixamos um legado bom e necessário. Que criemos filhos preparados para o mundo. Não apenas para enfrentá-lo, mas principalmente para cuidá-lo e amá-lo.
Que nossas crianças sejam um futuro promissor e bondoso. Que cuidem umas das outras e saibam que nenhum ser é uma ilha isolada.
E que saibamos que o mais importante não é deixar um mundo bom para nossos filhos, mas sim filhos bons para o mundo.

 

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Marina Barbieri é escritora, blogueira e mãe.
Autora da obra “Fique com alguém que não tenha dúvidas”, escreve crônicas, poesia e ficção.
Atualmente trabalha em seu segundo livro com previsão de lançamento para o final de 2019.

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